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"Cantata Sudamericana", Mercedes Sosa (1972)

Atualizado: 31 de mai.

Curadoria: Paulo Tiné


Boa tarde! Primeiramente, lembro que na descrição do grupo estão mais informações sobre como funcionam as postagens, além de ter links para os álbuns anteriores e um formulário para sugestões de vocês. Hoje teremos a primeira indicação do Paulo Tiné, que é violonista, arranjador, compositor e professor da UNICAMP. Para essa semana, ele escolheu o álbum *Cantata Sudamericana* (1972), da *Mercedes Sosa*. Segue texto escrito pelo Tiné comentando as faixas:

Após o grande sucesso da Missa Criolla na década de 1960, o compositor santafesino Ariel Ramirez, ligado ao chamado boom do folclore argentino da década de 1950, teve um grande êxito com o disco "Mulheres Argentinas"(1969). Com a intérprete destacada do Nuevo Cancionero Argentino, movimento da década de 1960 Mercedes Sosa, o disco traz a ideia estética da unidade sul-americana através da aproximação dos gêneros musicais e temáticas comuns aos países da região. A curiosa combinação de cravo e órgão, já utilizada no disco anterior se completa com uso de percussão, charango e instrumentos que evocam a cultura andina presente no noroeste argentino. Não por acaso, Mercedes é de origem tucumana, apesar do movimento se originar na província de Mendoza. Na arte em desenho da capa do disco seus traços ligados povos originários são reforçados e em suas mãos carrega um "bombo legüero", muito difundido na região. A canção de abertura do disco "Es Sudamerica Mi Voz", segundo o pesquisador Caio de Souza Gomes, trata se de uma criação livre a partir de ritmos sul-americanos e traz o uso da marimba, instrumento normalmente utilizado na música afro-colombiana da costa do pacífico. "Canta Tu Canción", dedicada ao Brasil, é uma bossa-nova com alguns jogos de meio-tom ao violão que se assemelham ao modo Toninho Horta de tocar o gênero. A temática social, já presente em "Los Inundados" de Ariel Ramirez certamente aproximou a estética do Nuevo Cancionero com a música de Ariel para, nesse caso, narrar as mazelas sociais do Brasil. "Antiguos dueños de las flechas", também conhecida como "Índio Toba", fala a partir da visão dos povos originários da região, interpretada só com voz, percussão como textura sem articular um pulso e um baixo livre na introdução. Depois, com a entrada do pulso, se canta uma mescla de espanhol e toba (língua guaicuru do noroeste argentino) onde se clama a "Raza de Yguareté". Parece antecipar o que faria Naná Vasconcelos, Egberto Gismonti e Marlui Miranda anos depois com a cultura dos povos no Brasil. Em "Pampa Del Sur", a temática dos povos originários continua, entretanto se refere aos povos da região mais ao sul, que se estende da cordilheira ao mar: em ritmo ternário, com o rasgueado do violão e a volta do cravo orgão. "Acercate, Cholito", por sua vez, com uma harmonia tonal marcante, é uma valsa peruana, na letra da canção, uma valsa criolla: traz o piano no lugar do cravo (o que evoca o salão do séc. XIX) e o uso do requinto que, assim como a bandola e o tiple da colômbia, trazem os "ares" da polca que muita presença fez na América do Sul no século XIX. "Oración al Sol" traz a sonoridade andina mais características com os instrumentos típicos (charango e quena). A cultura Inca chegou a ocupar desde os territórios que hoje pertencem ao Equador e Colômbia até o norte do Chile e Noroeste Argentino e também foi utilizado como elemento de identidade nacional dentro do contexto cultural argentino. "Alcen La Bandera", por sua vez, traz ares mais caribenhos, região cujo nordeste da Colômbia e norte Venezuela participam: o uso da clave cubana 3+2, a harmonia de Guantanamera (I-IV-V) e a letra politizada clama pela liberdade e justiça através de "guitarras militantes", com o uso particular do cravo. Por fim, "Sudamericano En Nueva York" começa com piano, orgão e voz, soando como uma canção jazzística estadunidense em suas introduções ad libtum, porém, permanecendo assim, em rubato, o tempo todo. Segundo caio Gomes, ela "narra a vida do sudamericano em Manhattan, a sua inadequação à cidade e a nostalgia de sua terra de origem". Por fim, última música é "Alcen La Bandeira", o que inclusive dá uma outra dimensão pois tem uma pegada mais cubana e letra de conteúdo politizado. Assim termina o disco marcado pela incrível interpretação de Mercedes Sosa, com afinação impecável e timbre ímpar e, talvez, o último grande êxito de Ariel Ramirez como compositor.

FICHA TÉCNICA

Compositores Ariel Ramirez & Feliz Luna; Ariel Ramírez (Cravo), Kelo Palacios (charango), Raúl Mercado (Quena), George Kenny (órgão), Gustavo Fernández (requinto), Santiago Bertiz (cuatro e violão), Domingo Cura, León Jacobson e Enrique Roizmer (percussão), Oscar Além (baixo), o conjunto vocal Los Arroyeños, “asesor para ritmos tobas” Raúl Cerrutti.


PAÍS

Argentina


TIPO DE SOM

Valsa Peruana; Salsa; Bossa-Nova; Canção; Música Indígena


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