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"Paulo Tiné & Ensemble Brasileiro", Paulo Tiné & Ensemble Brasileiro (2017)

Atualizado: 31 de mai.

Curadoria: Paulo Tiné


Fala pessoal, mais uma semana de clube! E, conforme explicado no começo do ano, teremos mensalmente convidados fazendo curadoria de metade dos álbuns apresentados. Hoje temos a segunda indicação do Paulo Tiné, que é violonista, arranjador, compositor e professor da UNICAMP. Para essa semana, ele escolheu apresentar um álbum dele: Paulo Tiné & Ensemble Brasileiro (2017). Aqui vai o texto que ele escreveu sobre:


O disco traz uma mistura de arranjos históricos de Pixinguinha e Duda do Recife, arranjos originais e composições de Paulo Tiné, adaptados ou escritos para uma formação idealizada para a música popular do Brasil: o Ensemble Brasileiro. Para essa formação os *gêneros do samba, choro, frevo, baião e ternários (valsa, guarânia, chamamé) soariam como que dentro da ideia de uma orquestra típica*.
- A primeira música, "Pelo Telefone" de Dunga e Mauro de Almeida, se trata do primeiro samba gravado da história, mas com o arranjo de Pixinguinha escrito para a série de discos dos anos 50 intitulado "O Carnaval de Pixinguinha" adaptados ao ensemble: sax-soprano faz o 2o trompete, trombone toca o bombardino e baixo faz a tuba, violão e sanfona completam a harmonia. As repetições, típicas do responsório dos sambas de roda, alternam a letra oficial e "oficiosa", de fato, a letra verdadeira.
- "Feitiço da Vila", clássico de Noel Rosa, é intencionalmente um arranjo "tradicional". Não que se tente emular as características de "Pelo Telefone" e outros da época, mas não buscam rearmonizações jazzísticas tão comuns em versões posteriores ao período da Bossa Nova.
- "Flor do Abacate" retoma a série de Pixinguinha, entretanto, esse choro de Álvaro Sandim não foi gravado na série, restando apenas a partitura. Quiçá, essa seja a primeira gravação do arranjo, também adaptado.
- O clássico "Apanhei-te Cavaquinho" de Ernesto Nazareth, em arranjo original, procura texturas variadas, ás vezes contrapontísticas e outras emulando as bandas de coreto. Propõe uma improvisação coletiva que, sendo contrapontística, assemelha-se à sonoridade das antigas jazz bands, as quais os "8 Batutas" (grupo de Pixiguinha), pelo menos iconograficamente, se identificaram.
- Segue-se, então, um choro autoral: "Choro Pras Meninas". Outra composição autoral é o "Lamento Nordestino", já gravado e interpretado outras vezes, sobretudo por violonistas de formação clássica e, aqui, com voz adicionada. Egberto Gismonti viu nela uma predominância em Brahms, porém, em sinal cruzado, a música erudita voltando para o povo, depois de sair dele.
- De Egberto é a composição "Palhaço" tendo sido feito para sua música mais famosa um arranjo em colagem: o início e o fim da música próximos à gravação original de Circense, e, no meio, o arranjo de Ricardo Rizek instrumentado para o grupo. Nessa música que se constatou jogos rítmicos e de resolução fraseológica que se aproximam da música de fronteira do Brasil, algo próximo à guarânia e ao chamamé, com jogos de 3/4 e 6/8, tão característicos, e resolução em tempo fraco. Diferente, mas também presentes na chacarera argentina. É nessa característica - que remete à nossa música caipira, cujo Rio Paraná une desde os ríos Tietê e Paranapanema ao Rio da Prata, passando por Posadas, Encarnación, Corrientes, Santa Fe, Paraná até Rosário Central, passando por Foz do Iguaçu - que reside a nostalgia do passado, da infância, dos guaranis, tão bem representados na figura do circense.
- Em seguida, mais uma composição autoral: "Valsa Moura". A palavra aqui não vem dos antigos muçulmanos ou judeus convertidos à força na Idade Média na península ibérica mas, talvez por isso, a ideia de estranheza, de algo fora do convencional: uma melodia angular, torta, quase atonal harmonizada de modo igualmente não funcional. Porém, a ideia da valsa, da valsa brasileira e sua linhagem, procura permanecer em litígio com a não adesão às suas convenções de beleza. Ao final, como em um acelerando ou em direção a um "delirando", a música termina com uma improvisação livre e coletiva.
- Na mesma direção, talvez de modo menos litigioso, esteja o frevo "Bairro de Afogados". Como as questão de harmonias jazzísticas nunca foram problema para o frevo, ela parece aderir mais à convenção. Entretanto, propõe uma improvisação em uma harmonia modal no lugar de usar a estrutura harmônica da melodia e é proposta uma coda contrapontística como um fugato.
- Por fim, como em espelho ao início do disco, um clássico do repertório do frevo, "Hino aos Batutas de São José", também conhecido como "Sabe lá o que é isso" de João Santiago. Ele foi executado a partir do arranjo de Duda do Recife na formação das marchas carnavalescas, que muito se aproximam a do ensemble, ao ponto de praticamente não haver adaptação, apenas a introdução de uma improvisação na estrutura da canção. Assim procurou-se uma síntese entre o velho e o novo, o convencional e um pequeno estranhamento dentro de uma ideia de brasilidade.

FICHA TÉCNICA

Juliana Ferretti (voz); Jussiê Regis (Flauta); Jussan Cluxnei (Clarinete); Rodrigo Nascimento (saxofone); Mario Checcetto (saxofone); Amílcar Rodrigues (Trompete); Ruben Marley (Trombone); Paulo Tiné (Violão); Vicente Falek (Acordeom); Igor Pimenta (Baixo); Ricardo Berte (Bateria e Percussão).

Participações especiais: Anderson Quevedo (saxofone) e João Lenhari (trompete)


PAÍS

Brasil


TIPO DE SOM

Samba, Choro, Baião, Valsa, Frevo


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