“El Mal Querer”, Rosalía (2018)
- João Casimiro

- há 1 dia
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Boa tarde pessoal. Hoje temos uma indicação livre enviada através do formulário disponível pra todos aqui na descrição do grupo. A artista da vez é a espanhola Rosalía com o álbum El Mal Querer (2018) trazida pelo participante Vitor Kenai de Carvalho, segue seu texto sobre o álbum:
O segundo álbum da cantora e compositora espanhola Rosalía Vila Tobella, intitulado El Mal Querer (2018), representa um marco estético e conceitual na música popular contemporânea, notada e enfaticamente por sua fusão entre o flamenco tradicional e as linguagens sonoras da música urbana e eletrônica. O álbum nasceu como trabalho de fim de curso da Rosalía no Conservatório de Barcelona e foi desenvolvido em colaboração com El Guincho (Pablo Díaz-Reixa) e Ferran Echegaray, constituindo-se em uma obra de síntese entre tradição, inovação e narrativa conceitual. A cantora investiu muito do próprio dinheiro no projeto antes de assinar com uma gravadora. Concebido como um álbum conceitual estruturado em capítulos, El Mal Querer é livremente inspirado na obra literária medieval Flamenca (século XIII), cuja narrativa aborda as dinâmicas de um relacionamento amoroso marcado pela posse, ciúme e libertação.
Cada faixa é apresentada como um “capítulo” que representa um estágio da trajetória emocional da protagonista, transcendendo musicalmente, articulando-se como uma narrativa sonora e simbólica sobre o amor e o poder. “Malamente” (Cap.1: Augurio) foi o single de arrancada: viralizou por unir palmas/flamenco com batidas urbanas e atenção visual forte (vídeo). Inaugura o álbum com a justaposição de ritmos flamencos, palmas e batidas urbanas, criando uma sonoridade singular que se tornou um símbolo da nova estética híbrida de Rosalía. Ganhou vários prêmios e abriu o caminho para a recepção crítica do disco. Faixas como “Bagdad” (linha melódica inicial de “Cry Me a River”) e “A ningún hombre” usam momentos acapella, texturas minimalistas e manipulações eletrônicas para destacar o canto — alternância entre espaços muito secos (voz só) e paisagens sonoras densas é recorrente, criando uma atmosfera oscilatória de contraponto de textura. “A Ningún Hombre” (Cap. 11: Poder), exploram uma estética mais etérea e introspectiva, destacando a dimensão emocional e espiritual do repertório. No plano estético-musical, o álbum se destaca pela integração entre elementos acústicos e eletrônicos, característica da produção contemporânea de vanguarda. El Mal Querer pode ser compreendido como uma tradução intersemiótica de Flamenca: uma transposição de uma narrativa literária medieval para o formato de álbum musical contemporâneo. Essa transposição é sustentada por um discurso estético que articula e evidencia emancipação feminina, ressignificação do amor romântico e reinterpretação das tradições culturais ibéricas à luz da modernidade. A instrumentação inclui o uso de palmas flamencas, guitarras tradicionais e compassos típicos, combinados com baterias eletrônicas, sintetizadores, samples processados e efeitos digitais que atualizam a linguagem flamenca para o contexto pop do século XXI. A produção, assinada majoritariamente por Rosalía e El Guincho, demonstra profundo controle sobre texturas sonoras, dinâmicas e espacialidade, revelando uma abordagem híbrida entre o experimentalismo eletrônico e a estética minimalista.
O trabalho vocal de Rosalía é um dos aspectos centrais da obra. A cantora adota recursos expressivos do cante jondo (""canto profundo"") — gênero vocal de origem andaluza marcado por intensa carga emocional e ornamentação melódica, mas os reinsere em um contexto estético contemporâneo, no qual a manipulação digital da voz (como autotune, camadas e reverberações artificiais) é utilizada de modo artístico, intencionalmente expressivo, e não apenas corretivo. A alternância entre passagens a cappella, densas camadas vocais e momentos de silêncio contribui para uma narrativa musical de alta expressividade e dramaticidade. O álbum consolida Rosalía como uma das vozes mais influentes da música hispânica do século XXI, evidenciando uma postura autoral que une pesquisa estética, domínio técnico e experimentação sonora.
FICHA TÉCNICA
Gravadora: Sony Music Entertainment España, S.L. / Columbia Records.
Data de lançamento: 2 de novembro de 2018.
Locais de gravação: “El Guincho Studio”, “Casa Arte El Hierro”, “Lo-Fi Studio”.
Mixagem: Jaycen Joshua (com assistentes Jacob Richards, Rashawn McLean e Mike Seaberg)
Masterização: Chris Athens
Conceito / Direção artística: Rosalía + Ferran Echegaray z
PAÍS
Espanha
TIPO DE SOM
Pop
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