"Amaríssima", Melly (2024)
- Lucas Bonetti

- há 14 horas
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Bom dia! Hoje damos início às leituras e escutas de 2026 com a indicação de Uellington Pinto Pereira Junior, o Tom. O álbum da semana é Amaríssima (2024), da cantora Melly.
Em uma indústria de música feita para fones de ouvido, Melly abraça o desafio de fazer caber em equipamentos tão pequenos um som do tamanho do mundo. Em Amaríssima, seu álbum de estreia, a cantora baiana de apenas 23 anos carrega uma ambição, mesmo que não intencional de elevar a música baiana a um novo patamar, com passeios pelo Amapiano da África do Sul, o RnB e Soul de influências Norte-Americanas, mas com régua e compasso que apenas a Bahia dá. Além da confluência de gêneros e referências mundiais, o álbum traz um desafio particular para mixagem e masterização: o de equilibrar instrumentos acústicos e eletrônicos para convergir os sentimentos da compositora e produtora musical que assina todas as músicas do álbum. A parceria com nomes de peso, que vão de Liniker a Russo Passapusso e Yan Cloud na composição, Zamba e Panda na Produção, entre outros nomes que participam do projeto que culmina na indicação ao Latin Grammy em 2024 na categoria de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Os sons de Amaríssima procuram refletir a melancolia das letras de uma jovem que experienciou o lado bonito mas também amargo do amor. O título, por sinal, é superlativo da palavra amargo, que aparece também em faixas como “Cacau", formando uma sinestesia entre letra, som, gosto e imagem de quem sabe que música não é apenas harmonia, ritmo e melodia, mas também é sentimento. Sobre as referências e processo de produção do disco que levou cerca de um ano e meio Melly destaca:
“Eu precisava trazer a melancolia para as faixas e composições, por isso o álbum conta com a participação de instrumentos de corda, como o violão. Trouxe muito do violão por acreditar que a madeira traz este sentimento, os instrumentos acústicos, a bateria acústica. Tentei extrair o amargo trazendo instrumentos de percussão, madeira e violoncelo. Porque vejo que cada música é uma imagem diferente, cada canção é um recorte sonoro, que somado ao beat entrega a sensação que busco ao entregar meu primeiro disco.”
Como faixas destaque, “Cacau” e “Derreter e Suar” trazem vocais duplicados com reverb e delays meticulosamente dosados para causar a sensação quase onírica de ouvir os pensamentos de alguém. Melly alterna entre vocais potentes e suaves e registros vocais distintos da sua voz de cabeça e peito, fazendo com que o jogo de diferentes vozes mantenha o cérebro sempre estimulado, imaginando qual surpresa virá o no próximo verso, e ela sempre vem. Ainda nessas duas faixas, elementos eletrônicos do Amapiano como o Log Drum, dividem espaço com a percussão acústica da Bahia, fazendo o ouvinte alternar entre o Bacardi e a Batedeira, dois estilos de dança referentes e o Amapiano e Pagodão Baiano, respectivamente. A clara divisão entre sessões em cada canção facilita o processo de mixagem, fazendo com que a cada pedaço se reserve apenas o necessário, assim, harmonia e percussão quase sempre presentes deixam o espaço suficiente para a estrela do álbum: os vocais de Melly. Nada soa exagerado, nada soa fora do lugar e os créditos para essa sensação vão para David Corcos (O Marroquino) e Luciano Scarlecio na mixagem e Victor Vaughan e, novamente, Luciano Scarlecio na masterização.
Comecei o texto falando do desafio de fazer caber em fones de ouvido um álbum desse tamanho, e finalizo com o convite à escuta desta obra em versões ao vivo, onde tanto Melly quanto os instrumentistas que a acompanham crescem em gênero, número e grau. A artista que marcou presença em festivais como o Afropunk, Festival de Verão e The Thown prova algo que é comum aos artistas baianos, ouvir no fone é ótimo, mas o ao vivo é sempre melhor e no caso de Melly, Amaríssima prova que o lado amargo do amor pode chegar doce aos ouvidos.
FICHA TÉCNICA
Direção Musical: Melly
Produção musical: Melly; Ícaro Santiago; Theo Zagrae; DEEKAPZ; Marcelo Delamare; Zamba; Tainã Trocolli; Panda; Eric Manigga; SEKO.
Mixagem: David Corcos (O Marroquino); Luciano Scarlecio
Masterização: Victor Vaughan; Luciano Scarlecio
Agenciamento: MAP Music
Licenciamento: Som Livre
Realização: MAP Music, GIRO Planejamento Cultural
Produção Executiva: Melly, Tito Araujo, Amanda Gomes, Marcela Nunes, Rogerio Rodrigues, Junior Carvalho, Melly Produções LTDA, MAP Music, Gabriela Rocha (Giro Planejamento Cultural)
O projeto tem patrocínio da Natura Musical e do Governo do Estado, através do Fazcultura, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda.
PAÍS
Brasil
TIPO DE SOM
MPB, Pop, R&B, Axé, Samba-Reggae
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