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"Os Incríveis", Michael Giacchino (2004)

  • Foto do escritor: Lucas Bonetti
    Lucas Bonetti
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

Olá! Iniciamos hoje uma série de indicações que aparecerão por aqui ao longo do semestre, assinadas por estudantes de uma disciplina de composição para mídias que ofereci semestre passado na UFBA. Para abrir essa sequência, Vitor Kenai Santos de Carvalho traz o trabalho icônico de Michael Giacchino em Os Incríveis (The Incredibles, 2004). Segue o texto do Vitor:


Escolhi essa obra porque, desde a primeira vez em que a assisti, ainda na infância, lembro de ter experimentado uma mistura muito particular de emoções provocadas pela trilha sonora. Foi um contato ainda “inocente” com o jazz, um gênero musical que normalmente não é apresentado ao público infantil. Recordo-me de como me parecia extraordinário o modo como a música se integrava organicamente à atmosfera do filme, ampliando a imersão e produzindo um impacto estético que, para mim, era completamente novo, especialmente dentro do universo da animação. The Incredibles permanece até hoje como um dos meus filmes favoritos, e continuo vivenciando esse conjunto de sensações sempre que retorno à trilha sonora. Ainda reconheço, com clareza, essa impressão de “fazer muito sentido”, como se a música tivesse o poder de transportar imediatamente quem assiste para aquele universo narrativo. Essa experiência reafirma, a meu ver, a força expressiva do jazz e sua capacidade de criar atmosferas envolventes e quase mágicas dentro da narrativa audiovisual. A trilha sonora de The Incredibles, composta por Michael Giacchino para o longa-metragem da Disney–Pixar, representa um marco significativo tanto na trajetória do compositor quanto na estética musical da própria Pixar. Foi a primeira colaboração de Giacchino com o estúdio.
O diretor Brad Bird buscava um som que traduzisse o conceito de “futuro visto pelos olhos da década de 1960”, uma espécie de retro-futurismo que dialogasse simultaneamente com nostalgia e modernidade que são a proposta da atmosfera do cenário em questão. Nesse sentido, a trilha foi pensada de uma forma que evocasse o universo dos filmes de espionagem da época, marcados por metais vigorosos, grooves sincopados e uma sonoridade jazzística altamente energética. Inicialmente, Bird chegou a considerar John Barry, famoso pelo estilo de “James Bond”, como compositor do projeto. No entanto, Barry optou por não repetir fórmulas estéticas que já havia utilizado em trilhas anteriores, o que abriu espaço para a entrada de Giacchino. Do ponto de vista musical, a trilha pode ser caracterizada como uma fusão entre soundtrack orquestral, big band jazz, cool jazz e elementos de ação cinematográfica. A paleta sonora é fortemente influenciada pela tradição das trilhas de espionagem dos anos 60, o que se evidencia na presença de fanfarras de metais formando motivos heroicos, um uso expressivo de síncopes rítmicas, linhas de baixo pulsantes que sustentam o ritmo “viscoso” do jazz e harmonias estendidas (com acordes de 9ª, 11ª e 13ª) que conferem sofisticação e dinamismo à narrativa musical.
A faixa “Life’s Incredible Again”, uma de minhas favoritas, funciona como uma peça de montagem que acompanha o momento em que Bob Parr começa a retomar sua rotina heroica. Por isso, a música é construída com um caráter enérgico, otimista, sustentando o ritmo acelerado das cenas. Do ponto de vista técnico, a obra estabelece B♭ como centro recorrente, embora Giacchino utilize com frequência pequenas modulações modais, variando entre o campo harmônico maior e menor, tons relativos, além de passagens enriquecidas por cromatismos característicos do jazz orquestral, especialmente nas linhas de baixo e nas vozes internas e cores emprestadas para reforçar o dinamismo visual. A textura é marcada por metais incisivos, articulados em riffs rítmicos curtos que funcionam como motores da ação, enquanto a seção rítmica (baixo e bateria) sustenta o pulso com uma linguagem “big-band moderna”. Madeiras e cordas surgem de forma pontual, atuando como camadas de preenchimento e contraponto, reforçando a sensação de brilho e fluidez típica do “retro-futurismo” buscado por Brad Bird.
Um ponto importante na construção da atmosfera retro-futurista está nos procedimentos de gravação. Para obter um timbre mais próximo das produções dos anos 1960, a equipe optou pela gravação em fita analógica, com músicos tocando simultaneamente na mesma sala. O engenheiro de som Dan Wallin afirma que, além de trazer calor às frequências médias, esse método acentua a presença dos instrumentos de sopro que desempenham papel central na trilha. O uso de gravação analógica contribui para que os metais soem mais encorpados, brilhantes e com um impacto mais “autêntico”, reforçando a estética pretendida por Bird e Giacchino.

FICHA TÉCNICA

Michael Giacchino (compositor /produtor)

Orquestração: Tim Simonec (principal), Gordon Goodwin, Jack Hayes, Matthew Ferraro, Adam Cohen, Chris Tilton

Regência: Tim Simonec

Orquestra: Hollywood Studio Symphony

Engenharia de Gravação e Mixagem: Dan Wallin

Gravado: 2003–2004. Lançamento: 2 de novembro de 2004 (Walt Disney Records)


PAÍS

Estados Unidos


TIPO DE SOM

Trilha Musical


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